Sinal vermelho para a mobilidade urbana na capital

Estudos apontam que a locomoção inteligente pode reduzir o caos vivido nos grandes corredores da cidade

Letícia Horsth  e Camila Dutra
1º e 2º períodos

 

Fotos Letícia Horsth

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Belo Horizonte, primeira cidade planejada do Brasil, tem hoje aproximadamente 2,3 milhões de habitantes e uma frota total de 1,7 milhão de veículos, segundo dados do IBGE.  O crescimento desordenado da população e do trânsito faz com que a chamada “Cidade Jardim” enfrente problemas de infraestrutura urbana e de mobilidade. O crescimento acelerado da capital mineira traz à luz discussões importantes e desafios cada vez maiores para os gestores de tráfego da cidade. A BHTrans, empresa que regulamenta o transporte público na capital, publicou no Diário Oficial do Município (DOM) no último mês, a portaria 98/2016, que dispõem sobre a legislação do transporte de bicicletas no sistema de transporte coletivo convencional por ônibus, incluindo os veículos do move, e de transporte coletivo suplementar de Belo Horizonte, como uma alternativa de locomoção.

As dificuldades de mobilidade urbana que os cidadãos belohorizontinos enfrentam diariamente nos corredores da cidade é um desafio jamais imaginado há cem anos atrás. O publicitário Eduardo Jacuri é usuário de ônibus coletivo em Belo Horizonte. Todos os dias ele sai do Bairro Santa Tereza e vai para Pampulha, atravessa a cidade nos horários de pico e enfrenta mais de duas horas entre idas e vindas. Jacuri diz que o transporte público melhorou com a implantação do MOVE. “Devido à alta demanda em horário de pico muitas coisas ainda precisam ser revistas, como o número de veículos disponibilizados nesses horários”, afirma.

Segundo ele “o Move surge como uma oportunidade para ampliar e melhorar os equipamentos urbanos disponíveis na cidade e prova a cada dia que não dá conta da superlotação em horários de maior fluxo, sendo um exemplo de pouco sucesso de modernização da infraestrutura de mobilidade que no final das contas não supre os anseios da população”, conclui.

Para  Paulo Vanderley Silva, a opção de transporte mais em conta é  sua bicicleta. Ciclista e estudante de direito da UFMG, ele diz que as pistas não contemplam alguns dos principais corredores de tráfego que ele precisa para chegar nos seus destinos, o que não incentiva o uso da bicicleta como meio de transporte por parte da maioria da população. “Os limites são muitos e os desafios de se locomover são constante, tendo em vista os perigos enfrentados no percurso”, avalia.

A opção pelo carro nunca fez bem para o bolso do mineiro e nem para o meio ambiente. Estima-se que o motorista gaste cerca de 18% de sua renda para manter o carro. Segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), automóveis e motocicletas emitiram cerca de 67 milhões de toneladas de gás carbônico em 2013 no Brasil, o triplo do que foi liberado por ônibus (22 milhões de toneladas).

Lucas Cândido, empresário do ramo imobiliário, disse que já tentou em outras oportunidades não trabalhar com seu veículo, mas afirma que as outras opções, como o metrô e o ônibus, não o atenderam no deslocamento traçado devido às limitações de cada serviço. “O alto preço da gasolina, o número de veículos cada vez maior nas ruas e a falta de opção no transporte público geram grandes perdas financeiras e de tempo para mim, mas é a solução para a realização do meu trabalho”, afirma o empresário.

 A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSU), coordenada por Pier Senesi, busca articular a definição e a implementação das políticas públicas referentes à organização da capital, observando a legislação urbanística e ambiental vigente. Com o atual crescimento urbano, o transporte coletivo municipal por ônibus na capital abrange 263 linhas, com 2,8 mil veículos e 1,5 milhões de passageiros/dia. O objetivo da SMSU, segundo o secretário, é fazer de Belo Horizonte uma cidade ordenada, acessível, com mobilidade e limpa, para garantir segurança e qualidade de vida à população, o que também prevê a utilização de meios de transporte menos poluentes como o metrô.

O metrô da capital, com 28 km de linha, absorve 120 mil passageiros por dia. Segundo o Secretário, este número ainda é inferior ao esperado para atender a cidade. Ainda segundo ele o ordenamento urbano conta com o apoio das secretarias municipais adjuntas de Fiscalização (SMAFIS) e de Regulação Urbana (SMARU). Além disso, estão vinculadas à secretaria, a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) e a Empresa de Trânsito e Transporte de Belo Horizonte (BHTrans). Essa articulação permite à Administração Municipal desenvolver estratégias integradas para tratar as questões que refletem diretamente no bem-estar dos belohorizontinos.

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ENTREVISTA

Em entrevista exclusiva concedida ao Jornal Lince, o Secretário Municipal da Regional Centro Sul, Pier Giorgio Senesi Filho, ressaltou que dentre os atuais programas previstos pela BHTrans para os próximos anos, incluídos no Plano Municipal de Mobilidade, está,  entre outras prioridades,  a expansão do MOVE na Av. Amazonas. Confira:

Jornal Lince: Existe alguma ação imediata nos planos diretores e dos planos de mobilidade urbana de Belo Horizonte obrigado pela legislação, a ser construído com a participação de representantes da sociedade civil organizada? 

Pier Senesi: A Sociedade Civil organizada pode e deve participar das decisões e acompanhar as ações do município em quaisquer das áreas de atuação, na construção de políticas públicas. A questão da mobilidade conta com a participação popular no Conselho Municipal de Mobilidade Urbana e no Observatório da Mobilidade (disponível para acesso e participação das reuniões agendadas em: http://www.bhtrans.pbh.gov.br/observatorio). Para o primeiro, o cidadão participa através de sufrágio entre os membros das Comissões Regionais de Transporte e Trânsito, escolhidos entre a população em votação aberta em cada uma das regionais administrativas, representando cada um dos 40 territórios. As informações estão disponíveis no site da PBH em http://gestaocompartilhada.pbh.gov.br/colegiados/apresentacao

 Jornal Lince: Como andam os investimentos federais, estaduais e municipais na infraestrutura para a mobilidade urbana?

Pier Senesi:  Neste momento, em que o país atravessa uma crise econômica, arriscar a falar sobre os investimentos federais pode ser um pouco arriscado. Embora para o nosso município que se antecipou e apresentou projetos ao Ministério das Cidades, financiamento para a implantação do MOVE Amazonas está assegurado e poderá ocorrer no próximo ano. Entretanto cumpre salientar que o país precisa voltar a crescer para que os investimentos aconteçam, mesmo aqueles em que possa haver a participação da iniciativa privada.

Jornal Lince: BH a cada dia cresce mais. A implantação de uma política de mobilidade, construída com a participação efetiva da sociedade, com representantes nos conselhos municipais de transporte, estabelecendo qual o nível do serviço de transporte público se faz necessária. Há alguma ação neste sentido elaborado pela Prefeitura?

Pier Senesi: Se tomarmos a proposta do Novo Plano Diretor – PL 1749/15, que está na Câmara dos Vereadores para ser votada e transformada em lei, a sociedade teve importante papel, já que participou de todas as etapas da elaboração. Quanto à mobilidade, especificamente, existem hoje os 9 CRTTs (Comissões Regionais de Transporte e Trânsito) correspondendo a uma comissão para cada Regional Administrativa, o Conselho Municipal de Mobilidade Urbana(COMURB ) e o Observatório da Mobilidade, todos com ativa participação popular.

 Jornal Lince: Existe alguma política para o pedágio urbano para carros? E voltado para o Rodízio de carros? 

Pier Senesi: Todas essas propostas são estudadas e discutidas com a população através, como já disse, do Observatório da Mobilidade.

Jornal Lince:  Qual o investimento em transportes alternativos que BH faz atualmente? 

Pier Senesi: Os investimentos em transporte alternativo, como bicicletas por exemplo, vem sendo realizado dentro do orçamento anual da BHTrans, na construção de ciclovias, bem como com a participação dos empreendedores através de medidas compensatórias e mitigadoras, quando se constroem as vias e se implantam os paraciclos.

Jornal Lince: Para implantar um transporte completo e eficaz por bicicleta, o governo teria de criar ciclovias, bicicletários, banheiros públicos, campanhas educativas, subsídios para bicicletas entre outros importantes elementos. Existe hoje algum projeto de priorização do transporte cicloviário?

Pier Senesi: Há projetos e estudos que contemplam a implantação de mais e 400 km de ciclovias em toda a cidade. Alguns deles estão em implantação e estará concluindo uma etapa de aproximadamente 90 km. É trabalho contínuo e é necessário mudar a consciência da população para esse importante modal de transporte.