Número 1

INC 0114 – DA SEMIFORMAÇÃO À FORMAÇÃO CULTURAL DO EDUCANDO: OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL NA PERSPECTIVA DE THEODOR W. ADORNO

Patrícia de Aquino Guerra1
Cássia Alessandra de Oliveira Sousa1
Eliane Maria Freitas Monken2
Bruno Luciano de Paiva Silva3

 

Resumo: Para compreender as manifestações de violência que têm ocorrido nas instituições de ensino, o presente estudo teve como objetivo investigar, na perspectiva do filósofo alemão Theodor W. Adorno, qual o papel da escola e da sociedade nesse contexto, buscando responder até que ponto os profissionais da educação podem contribuir para a formação da criança, evitando a sua semiformação e conduzindo-a ao desenvolvimento de sua formação cultural, visto quea criança nasce em uma sociedade barbarizada. A metodologia aplicada para essa investigação foi a pesquisa bibliográfica. Várias etapas foram seguidas, entre elas a pesquisa exploratória, as leituras exploratória, seletiva, analítica e interpretativa, passando-se para a fase de documentação e, logo, a escrita do artigo científico. Após essa trajetória metodológica da pesquisa, conclui-se que ao analisar a educação a partir dos conceitos de emancipação e barbárie, concluiu-se que se faz necessário reconstruir a individualidade do sujeito por meio da autorreflexão crítica.

Palavras-chave: Educação. Emancipação. Barbárie. Semiformação. Autorreflexão.

Abstrat: To understand the violence manifestations that has been occurred at the educational institutions, the study had the objective of investigating, in the perspective of the german philosopher Theodor W. Adorno, what function of the school and the society in this context, searching for answering whither the educational professionals can contribute to the children development, avoiding the semiformation and leading them to the development of the cultural formation, since the child is born in a barbaric society. The methodology applied in this investigation was the bibliographic search. Too many steps were followed, applying the exploratory search, the exploratory, selective, analytical and interpretative readings, turning them a phase of documentation and, then, the writing of the scientific article. After this methodological trajectory of search, it is concluded that when analyzing the education from the concepts of emancipation and barbarism, it is concluded that it is necessary one reconstruction of the individuality of the bloke by the self-reflection criticism.

Key-Words: Education, emancipation, barbarism, semiformation, self-reflection.

 

INTRODUÇÃO

A cultura, tal qual a conhecemos nos dias atuais, surgiu com a Revolução Industrial, quando a ascensão da burguesia tornou a vida urbana mais complexa. Neste contexto social, surgiu uma produção cultural criada por profissionais, que, ao contrário da cultura popular, é produzida hierarquicamente, impondo padrões e homogeneizando a preferência das pessoas por meio do poder de difusão dos seus produtos, exercendo grande influencia sobre os indivíduos. Essa cultura é denunciada por Adorno (2010)4, como um instrumento de alienação e massificação, capaz de alterar a maneira de perceber o mundo, atuando por meio da razão instrumental dos indivíduos, impedindo-os de pensar de forma critica e de se comportarem de maneira autônoma diante do mundo.

Ao situar o homem nesta cultura, esse mesmo autor supracitado, utilizou-se do conceito de esclarecimento que foi usado para explicar o programa básico de desencantamento do mundo, ou seja, a saída do homem da ignorância para uma situação de consciência crítica. Mas, ao contrário, o pensamento e a experiência, tomados no sentido de autorreflexão, empobreceram na medida em que a criatividade foi sendo reprimida e a sociedade, uniformizada. Os homens foram reduzidos a seres genéricos, tornando-se iguais aos demais, reduzidos à mera pertença ao gênero, na medida em que a técnica foi mergulhando-os num pensamento ofuscado, isto é, foram levados a adotar uma forma de pensar pela razão instrumental, uma forma de pensar única que não raciocina, simplesmente aceita tudo, passivamente. Assim, diante do homem contemporâneo, a figura do sujeito que predomina na sociedade é a da pseudoindividualidade, pois ele já não têm poder de decisão, nem na esfera mais intima de sua vida privada.

Nessa perspectiva, “o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas” (ADORNO, 1995, p.46), ou seja, a alienação das pessoas é realizada pela indústria cultural – representada pelos meios de comunicação de massa – televisão, cinema, rádio, jornal, revistas, internet e outros menos expressivos.

A afirmação do autor de que “O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural” (ADORNO, 1985, p.104), ganha importância visto que tudo na sociedade capitalista é regido pela indústria de entretenimento e o homem, inserido nesse contexto, é “adestrado”, pois sua imaginação e suas capacidades humanas são, paulatinamente, atrofiadas. Sendo assim, a forma de pensar, de perceber o mundo e de ter experiências é influenciada pela indústria cultural que tem como suporte a técnica representada pela publicidade. Ela mantem o infindável circuito de promessas e frustrações que mantem a economia em funcionamento.

Todo esse cenário caracteriza o que Adorno (1995) chama de barbárie, entendida como sendo o atraso dos indivíduos em relação a sua própria civilização, mesmo ela estando no mais alto grau de desenvolvimento tecnológico, alcançado até hoje.

No que diz respeito à educação, a realidade torna-se idêntica. As diversas formas de manifestação da barbárie nas escolas e suas implicações no contexto escolar se apresentam como um significativo obstáculo à melhoria da qualidade da educação. Nesse sentido, a desbarbarização é apontada como principal desafio a ser enfrentado pelo sistema educacional, nos dias atuais, como forma de reverter esse processo.

Esse fato é comprovado na pesquisa desenvolvida pela UNESCO (2002), descrita por Abramovay (2002),

que chama atenção para a tendência à naturalização da percepção das violências nas escolas (concepção abrangente de violências – maus tratos, uso de força, intimidação e as dimensões socioculturais e simbólicas do fenomeno) Assim, brigas, furtos e discussões são considerados acontecimentos corriqueiros, sugerindo a banalização da violência e sua legitimação, como mecanismo de solução de conflitos5.

Contudo, sabe-se que a sociedade está passando por um momento de barbárie, visto que na televisão a programação veiculada espetaculariza a violência, que, por sua vez, tem se mostrado espelhada cotidianamente, nas escolas, nas ocorrências de manifestações de bullings, ciberbullings, agressões e até da criminalidade.

Na perspectiva de Adorno (1995), esse diagnóstico do mundo contemporâneo revela por um lado, uma regressão à violência física primitiva, sem uma vinculação com os objetivos racionais da sociedade. Por outro lado, pode se identificar com a geração de condições humanas mais dignas, e, nesse caso, a violência não pode ser considerada uma manifestação de barbárie. No entanto, nos casos em que essas reações são apontadas pelo autor como o problema da semiformação do educando, ele posiciona-se quanto a necessidade de contrapor-se a uma ausência de consciência, focalizando sua atenção, especificamente, na educação infantil, pois, de acordo com a sua compreensão “ […] todo o caráter […] forma-se na primeira infância.” (ADORNO, 1995, p.121). Ele propõe, como parte de sua concepção, uma mudança de paradigma, uma vez que este problema está presente em todas as fases do ensino escolar – do infantil ao ensino superior.

Diante dessa realidade, torna-se imperativo pensar qual é o papel da escola e da sociedade, mediante aos problemas advindos das manifestações de barbárie? Foi nesse contexto de perplexidade que essa pesquisa originou-se, buscando responder, na perspectiva de Theodor W. Adorno, até que ponto os profissionais da educação podem contribuir para a formação da criança de 0 a 6 anos, intitulada como educação infantil, evitando a semiformação e conduzindo-a ao desenvolvimento de sua formação cultural, visto que a criança nasce em uma sociedade barbarizada.

Para responder a essa questão, tornou-se imprescindível eleger como objetivo geral o de investigar, na ótica de Theodor Adorno, como auxiliar na formação da criança de 0 a 6 anos, evitando a semiformação, conduzindo-a à formação cultural. Contribuindo com esse objetivo outros específicos e, não menos importantes, foram selecionados, quais sejam: – Investigar sobre os fatores que contribuem com a semiformação; conceituar heteronomia, autonomia e emancipação e sua relação com a educação para a desbarbarizaçao; pesquisar sobre a crise da formação cultural, bem como o processo da formação para a semiformação e sua relação com os conceitos de Indústria Cultural e Esquematismo Kantiano; levantar quais seriam as saídas para uma educação emancipatória na formação da criança, a partir do pensamento de Adorno.

Metodologicamente, utilizou-se a pesquisa teórica extraída de textos das obras“Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos” e “Educação e Emancipação”, além de outros livros que serão mencionados nas referencias bibliográficas.

Esse trabalho foi dividido em três partes: a primeira parte – Da semiformação á formação cultural na educação infantil: em busca da emancipação –, em seguida – O risco da semiformação do educando da educação infantil e, por fim – As possibilidades de uma educação focada na emancipação: a escola e seus atores. E, por fim, será apresentada a conclusão do trabalho e as referências utilizadas para escrita do texto.

 

EDUCAÇÃO INFANTIL: conduzindo o educando na busca de sua emancipação.

Da Semiformação à Formação Cultural do Educando na Educação Infantil.

Para Adorno (1995), a educação infantil constitui um momento singular no processo de formação cultural do educando. Considerando que os momentos opressivos e “repressivos da cultura produzem e reproduzem a barbárie nas pessoas submetidas a essa cultura”,( ADORNO, 1995, p. 157), a passagem da semiformação à formação cultural é um importante marco para reverter esse processo social em direção à desbarbarização. Nesse sentido, é preciso indagar para onde a educação deve conduzir. A resposta à pergunta encontra-se na ideia de educação do autor e no pressuposto politico de sua concepção, os quais sugerem revelar uma insegurança relacionada à complexidade do mundo, mas, diferente disso, abrem espaço para a discussão acerca dos objetivos da educação para a emancipação e elege o período da infância a fase fértil para a formação cultural do sujeito.

A infância foi apontada por esse autor como um momento importante para se trabalhar a formação, tendo em vista que sua concepção inicial de educação – a de produção de uma verdadeira consciência – encontra-se em consonância com as ideias de homem autônomo e emancipado de Kant – “na exigência de que os homens tenham que se libertar de sua auto-inculpável menoridade” (KANT apud ADORNO, 1995, p.141) as quais se contrapõem às ideias de adaptação e de modelo ideal, cujo conceito é de heteronomia, isto é, momento autoritário imposto a partir do exterior.

No que concerne a produção de uma consciência verdadeira, supõe-se que exista uma falsa consciência. Esse serviço é prestado pela indústria cultural – conjunto formado pelos meios de comunicação – que, por meio da técnica, se apropria do processo de pensar e sentir a realidade pela criança, fazendo-a crer que a realidade é única e inquestionável (adaptação) e, como resultado de sua exposição a esses meios, em vez de se emancipar, ela, gradativamente,vai sendo alienada, ou seja, vai transferindo à indústria cultural a sua autonomia.

O efeito desse processo na nossa sociedade é claramente observado nos momentos de heteronomia em que a criança obedece às normas impostas do exterior, garantidas pela autoridade dos pais e professores – os quais veiculam uma forma de pensar, de não-pensar e de linguagem. Durante essa evolução progressiva, a autenticidade do sujeito vai sendo usurpada e, assim, ele passa a agir sob as ideias e os comandos de outrem. A partir desses comandos autoritários, os modelos ideais vão sendo aos poucos assimilados pelo sujeito como é o caso do falso conceito de talento que será discutido posteriormente.

Quanto ao conceito de emancipação, ele pode ser lido em Piaget6 (apud Kami, 2008), que corrobora com as ideias de Adorno, quando retrata que a criança se desenvolve por meio de estágios também no aspecto moral. Para ele, as etapas em que a criança passa para adquirir essa formação são as fases da anomia, em que a criança não tem noção de regras; a outra, de heteronomia, na qual a criança é governada por outras pessoas e sabe que depende da aprovação do outro e, por fim, chega-se à fase da autonomia, a qual garante a sua formação cultural. Todavia, a criança somente passará de um estágio para outro se houver um trabalho de conscientização e de construção acerca de si mesma com relação a tudo que lhe cerca. Adorno (1995), apresentou sua ideia de emancipação que, embora abstrata, se fez presença necessária tanto no pensamento, quanto na prática educacional. Nesse sentido, o objetivo da educação infantil é o de contribuir com a formação da criança de modo a conduzi-la na direção do alcance da autonomia.

A partir dessaideia de emancipação de Adorno (1995),pode-se perceber que a criança desenvolve sua emancipação, dependendo das mudanças advindas de uma construção interna. Para ele, nesse caso, a prática que gera a emancipação apresenta dois problemas: o primeiro diz respeito à organização do mundo que converteu a si mesmo em sua própria ideologia, exercendo uma enorme pressão sobre as pessoas, a ponto de superar toda a educação, tendo em vista o obscurecimento da consciência. A investigação acerca do que representa o conceito de ideologia, no sentido amplo, diz ser “um conjunto de ideias, concepções, opiniões, crenças sobre algum ponto sujeito a discussão, bem como normas estabelecidas” (ARRUDA, 2012, p. 80) a partir de valores destinados a orientar a prática, criando modelos a serem seguidos para o controle da sociedade. Para ilustrar essa ideia, o autor utiliza-se do falso conceito de talento, ou seja, ele é falso na medida em que não existem modelos ideais para orientar a formação cultural do indivíduo.

O segundo problema, relaciona-se à adaptação. Sua implicação reside no fato de que “a formação foi entendida como conformar-seà vida real, ela destacou unilateralmente o momento da adaptação […].” (ADORNO, 2003, p.11) isto é, adaptar-se significa o sujeito aceitar sem questionamento a realidade presente.

Como consequência da adaptação, tem-se o realismo supervalorizado. Segundo Adorno (1995), os homens precisaram “impor a adaptação a si mesmos” num movimento de sobrevivência e nesse caso, “exagerando o realismo em relação a si mesmos” (ADORNO, 1995, p 145). O sujeito só (super) valoriza a realidade vivida (realismo) se estiver adaptado, isto é, não consegue perceber outras realidades. Portanto, o sujeito semiformado (adaptado) valoriza somente a realidade que o circunda, pois perdeu a capacidade de pensar a realidade com criticidade ao ser submetido à indústria cultural. Em vista disso, a aquisição da experiência pela criança fica prejudicada.

A partir de sua concepção de educação, o autor demarcou seu pressuposto político, porque a educação é antes de tudo política. Ela pode contribuir de modo decisivo para transformar o sujeito em cidadão. “Uma democracia efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado.” (ADORNO, 1995, p 142). Diante disso, o sujeito apto a exercer a democracia é aquele cuja formação teve como base a construção de uma consciência e que a legitima por meio de escolhas conscientes e atitudes previamente refletidas, caracterizando o homem autônomo e emancipado.

Sabe-se que, atualmente, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2009), é imprescindível nas propostas pedagógicas que os aspectos cognitivos, afetivos e atitudinais sejam privilegiados. Nesse caso, a proposta da escola deve ser aplicada, apontando as finalidades que levam as crianças a atuarem democraticamente, conforme conceito intitulado de Adorno que aponta a democracia como pressuposto politico para uma formação que conduz ao exercício da democracia.

Mas para o exercício da democracia faz necessário a construção individual de uma consciência. Essa possibilidade encontra-se na aquisição da experiência – tomada no sentido de autorreflexão. A experiência é um processo autorreflexivo, formando o sujeito e sua objetividade, ou seja, a experiência seria um processo resultado da relação do homem com tudo que o cerca, e a partir da autorreflexão das situações que surgem, nessa relação é que se dá a formação do sujeito que atua na sociedade.Nesse sentido, cada criança, ao explorar determinado objeto, extrai dele uma experiência diferente daquela experimentada por outro individuo, uma vez que se extraem conhecimentos do objeto, a partir da história que ela traz consigo construída ao longo da vida.

A partir da realidade única e inquestionável, em consonância com uma educação tradicional, a qual é apresentada às crianças na escola, questiona-se se as instituições de ensino podem ou não assumir a tarefa de saber o que é necessário para o desenvolvimento pleno da criança, de modo a torná-la um adulto crítico e emancipado. Diante dessa investigação, ele chama a atenção para a mudança da importância da educação em relação à realidade, já que ela se tornou tão poderosa que se impõe aos homens.

Acrescenta-se a este comentário que a institucionalização apresenta grandes dificuldades no que se refere à experiência, o que Adorno nomina de “memória involuntária, a qual se encontra num plano bastante sutil”. Entende-se por esse termo a aprendizagem não intencional espontânea, criativa, aquela que se adquire pelo prazer, por se estar totalmente presente a uma situação. Contrário a esta forma de aprendizagem, encontra-se a escola a qual é responsável por um aprendizado que é ordenado, o qual Adorno coloca em dúvida sua efetividade, por entender que a experiência por esse processo não só é superficial, mas também apresenta a realidade como única e inquestionável. Ao colocar em dúvida se a escola pode ou não assumir essa tarefa, o autor denuncia sobre o empobrecimento do repertório de imagens, a ausência de oportunidades para a imaginação e o empobrecimento da linguagem e de toda a expressão da criança, indicando que esses quesitos seriam elementos concretos para incitar uma pesquisa educacional sobre o que as crianças não conseguem mais apreender.

Essa imposição da heteronomia à criança durante sua formação desestimula suas capacidades de iniciativa, criatividade e emancipação, levando-aà menoridade. Considerando que a educação tem sido oferecida pela escola com o intuito de formar o sujeito, ela deveria ser o local adequado para vencê-la, mas para que isso aconteça o modelo de educação tradicional deverá ser superado.

Os principais problemas com os quais nos defrontamos hoje e que nominamos como fenômeno da alienação, isto é, tornar-se alheio, transferindo a outro o que é seu (ARRUDA, 2012, p. 76) estão relacionados à experiência – pois, “os homens não estão mais aptos à experiência, mas interpõem entre si mesmos e aquilo a ser experimentado, àquela camada estereotipada a que é preciso se opor.” (ADORNO, 1995, p.149) Essa camada corresponde aos modelos ideais que são constantemente veiculados pela mídia, por meio da técnica. Eladesempenha no consciente e inconsciente do individuo um papel que vai além da sua função real de entretenimento, como é o caso da usurpação do esquematismo que é a apropriação pela técnica do pensar e do sentir do individuo que oportunamente será discutido. Frente a esse fenômeno, o autor entende que uma educação direcionada para a emancipação não poderia estar desvinculada dos questionamentos da psicologia profunda.

Para melhor entender esse processo psicodinâmico de autorreflexão para a conscientização exige-se que se conheça o conceito de racionalidade ou de consciência. Segundo Adorno, esse conceito é apreendido como a capacidade formal de pensar. O que caracteriza, de fato, a consciência “é o pensar em relação à realidade, ao conteúdo – a relação entre as formas e estruturas de pensamento do sujeito e aquilo que este não é. ” (ADORNO, 1995,p. 151).

Diante do exposto, é preciso saber como ocorre o processo de semiformação do educando refletindo diretamente na questão da formação infantil e quais fatores que contribuem para que esse processo ocorra.

 

O risco da semiformação do educando da Educação Infantil

Das produções culturais existentes a que mais interessa é aquela representada pelos meios de comunicação que atinge um enorme contingente de pessoas de classes sociais e de formações culturais diferentes, também chamado de indústria cultural e que tem influenciado sobremaneira a formação das crianças resultando em uma semiformação.

Entre os representantes dessa cultura destaca-se a televisão por ser entre os meios de comunicação de massa o de maior alcance das pessoas e, entre todos, é aquele que exerce maior influencia sobre o expectador. Sob essa perspectiva, por um lado, a televisão é colocada a serviço da formação cultural e, por outro, atua como uma espécie de função formativa ou deformativa, tendo em vista o grande número de pessoas que se põem a assisti-la e a quantidade de tempo que um individuo gasta se expondo a ela.

No entanto, o autor centrou sua atenção, mais especificamente, “nos efeitos de transmissão da televisão sem objetivo educacional explicito, principalmente encenações televisivas” (ADORNO, 1995, p.760). Ele suspeita que ela contribua para divulgar ideologias e, ao ocultar a realidade, dirige de maneira equivocada a consciência dos espectadores, sendo que o conceito de informação é mais adequado à televisão do que o de formação, tendo em vista o que acontece durante a transmissão de sua programação. A partir dessa discussão, para que se represente um avanço no conceito de formação cultural, a tarefa seria a de encontrar conteúdos e produzir programas em conformidade com a configuração social e tecnológica para esse veículo, e não impostos a partir do exterior. Sendo assim, no que concernem os efeitos deletérios dos meios de comunicação de massa sobre os indivíduos, o resultado é a semiformação.

A crise da formação cultural está em toda parte, mesmo entre as pessoas cultas. Pelo fato de “tudo passar pelo filtro da indústria cultural” (ADORNO, 1985, p.104) a formação está em crise, tendo em vista seus reflexos nas manifestações de barbárie nas escolas. Os sintomas dessa crise não se esgotam com as insuficiências do sistema e dos métodos de educação, pode até reforça-la porquenivela-se por baixo a educação: aprende-se superficialmente aos conteúdos, deixando o sujeito com a sensação de que sabe muito, uma vez que ele é senhor de uma grande quantidade de informação sem se aprofundar em nenhuma e, também, por revelar uma despreocupação diante do poder que a indústria cultural exerce sobre os educandos. Sendo assim, as reflexões e as investigações sobre os fatores sociais que interferem na formação cultural, as considerações sobre sua atualidade e os inúmeros aspectos de suas relações com a sociedade são insuficientes.

Como consequência dessa situação “a formação cultural se converte em uma semiformação socializada, na onipresença do espirito alienado, que, segundo sua gênese e seu sentido, não antecede a formação cultural, mas a sucede.”(ADORNO, 2010, p.9). Isto quer dizer que a formação se transforma em semiformação na medida em que o individuo vai sendo alienado e, por isso, o seu sentido sucede a formação, porque depende dela para se efetivar, ou seja, a criança que está sendo semiformada passa por um processo de alienação resultado de sua exposição à indústria cultural.

Os movimentos revolucionários que queriam realizar o conceito de cultura como liberdade nos países ocidentais, fracassaram,tendo em vista terem se tornadoverdadeiras ditaduras. Assim, “a cultura converteu-se, satisfeita de si mesma, em um valor” (ADORNO, 2003, p. 10). O fato que o confirma encontra-se encerrado na ascensão de regimes totalitários realizado por pessoas que se dedicavam com paixão e compreensão aos chamados bens culturais e que pacificamente se entregaram à práxis assassina do nazismo, o que indica uma consciência dissociada dos objetivos do conteúdo daqueles bens. A partir desses fatos o autor constata que a formação que se esquece desse fato, que não incita a reflexão, absolutiza-se, acaba por transformar-se em semiformação.

Para Adorno, uma formação cultural que não leva em consideração essa possível neutralidade da cultura é ela própria a semicultura, o que direciona sua discussão para o problema central da Dialética do Esclarecimento: De um modo geral, o processo do esclarecimento seria o resultado do medo experimentado pelos homens no inicio de sua existência e que em decorrência dele criaram os mitos para explica-lo. Diante do instinto de autoconservação, a humanidade foi compelida a se defender das forças da natureza e na medida em que foram desvendando seus segredos pela racionalidade foram aprendendo a dominá-la.

Segundo o autor, o conceito de semicultura não corresponde à falta de cultura, mas a um processo planejado de retirada das possibilidades libertadoras, inclusive da incultura, que poderia ser aumentada em consciência critica, graças às caraterísticas do seu potencial. A semicultura é uma exploração consciente do estado de ignorância e de vazio do espírito surgida com a perda da tradição pelo desencantamento do mundo. Se o esclarecimento é a saída do homem da ignorância para uma situação de consciência critica, a indústria cultural por meio dos seus instrumentos de comunicaçãoexplora conscientemente a razão instrumental (ignorância) das pessoas para servir ao capital. Este estado de ignorância foi o mesmo que desde os primórdios da civilização acompanha o homem em sua jornada e que a indústria descobriu e colocou a seu serviço.

Segundo Adorno (2003), a formação cultural que a burguesia assumiu ante o feudalismo estava mais desenvolvida economicamente e não foi apenas o sinal de sua emancipação nem o privilégio pelo qual se avantajaram em relação à classe operária. Sem a formação cultural, o burguês dificilmente teria saído de sua condição anterior de homem feudal.

Assim chega-se ao ponto central da teoria de Adorno sobre a semiformação que é a ideia de que as classes desfavorecidas da população, antes mesmo que tivessem podido se formar, foram dominadas pela forma atual da ideologia, que hoje é mediada pela tecnologia, a indústria cultural.

O termo “Indústria Cultural” foi largamente utilizado por Adorno e Horkheimer(1985) para discutir os efeitos dos meios de comunicação de massas sobre a formação do sujeito como um todo, argumentando como as indústrias de entretenimento atuam, resultando seus atos na padronização e na racionalização da cultura, interferindo, significativamente, na capacidade do indivíduo de pensar e de agir de modo crítico e autônomo. Para melhor entender esse processo, selecionou-se o mecanismo da usurpação do esquematismo Kantiano.

Para explicar como a retirada do esquematismo prejudica a formação do sujeito, Adorno utiliza-se das ideias de Kant. Para este, o sujeito, a quem se refere como transcendental, apresenta uma estrutura psíquica consciente composta de três formas: sensibilidade (percepção sensível ou sensorial), entendimento (intelecto ou inteligência) e razão. A forma da sensibilidade é o que nos permite ter percepções. Ela é aquilo sem o que não pode haver percepção. Segundo Chauí (2005), o sujeito apreende a realidade por meio de dados empíricos, através dos sentidos: sensação do paladar, olfato, tato, visão, audição. O conhecimento, por sua vez, acorre quando a experiência oferece conteúdos à sensibilidade e ao entendimento, regulada e controlada pela razão. Porém, é pelo entendimento que o individuo transforma essa percepção em conceitos.

Essas estruturas – sensibilidade e entendimento – são dotadas de categorias as quais organizam os dados da experiência. Percebemos todas as coisas como dotadas de figuras, dimensões e grandezas, ou seja, realidades espaciais. Nada pode ser percebido se nós não possuirmos propriedades espaciais, por isso o espaço não é algo percebido, mas é o que permite haver percepção. Assim o espaço é a forma a priori (vem antes da experiência e não depende dela) da sensibilidade. Seguindo a mesma lógica a sensibilidade é dotada das categorias de tempo e espaço. Essa organização espaço-temporal dos objetos do conhecimento é inata.

O entendimento, por sua vez, organiza os conteúdos que lhe são enviados pela sensibilidade, isto é, organiza as percepções. Novamente o conteúdo é oferecido pela experiência sob a forma do espaço e do tempo, e a razão, através do entendimento, organiza tais conteúdos empíricos. Essa organização transforma as percepções em conhecimentos intelectuais ou em conceitos. Para tanto, o entendimento possui a priori um conjunto de elementos que organizam os conteúdos. Esses elementos chamados de categorias são condições para que haja o conhecimento intelectual. Com as categorias a priori o sujeito do conhecimento formula os conceitos. As categorias organizam os dados da experiência segundo a qualidade, a quantidade, a causalidade, a finalidade, a verdade, a falsidade, a universalidade e a particularidade.

A razão conhece os objetos do conhecimento. O objeto do conhecimento é aquele conteúdo empírico que recebeu as formas e as categorias do sujeito do conhecimento. A razão não está nas coisas, está no individuo. Ela sempre será subjetiva e não pode pretender conhecer a realidade tal como ela seria em si mesma, pelo simples fato de que as experiências do sujeito, no sentido de sua bagagem cultural, interferirem na leitura que o sujeito faz da realidade. Assim a razão depende da experiência psicológica ou da percepção do individuo.

Segundo Adorno (1985,) o segredo que foi desvendado pela indústria cultural, refere-se ao mecanismo secreto destinado a preparar os dados imediatos (percebidos pelo sentido), de modo a se ajustarem ao sistema da razão pura. A indústria cultural vai atuar na percepção dos indivíduos, adulterando sua percepção sensível das coisas e, como resultado dessa atuação, os indivíduos não perceberemaretirada do esquematismo, muito menos essa semiformação em que resulta. A indústria cultural ao retirar o esquematismo dos indivíduos provoca a semiformação e esta, por sua vez, causa a adaptação.

O sujeito adaptado na sociedade administrada não percebe, pela formação a que foi submetido,os elementos culturais, isto é, a exploração, a desigualdade, a alienação e a ideologia. Essa ausência de percepção se deve à usurpação do esquematismo. “O espirito da semiformação pregou o conformismo”(.ADORNO, 2003 p. 33) As pessoas que o representam se colocam acima de outras pelas qualidades que elas mesmas se atribuem, mas que na realidade lhes falta. O narciso simula um discurso de que é o melhor e o mais erudito,e, como diz o autor, “ como também se firmou a aceitação ao já existente e sua duplicação espiritual se faz seu próprio conteúdo e sua própria justificação”  (ADORNO, 2003, p. 33), isto é, o narcisismo seria a duplicação, a outra personalidade adotada pelo sujeito que é tudo que o sujeito tem: a ilusão de ser o que não é. Sua maior característica é sua incapacidade de pensar no outro.

O conformado, sujeito semiformado, adota um comportamento narcisista que se transforma em uma personalidade autoritária. O sujeito autoritário, desenvolve-se como ser autodeterminado, tratando os outros como se fossem uma massa amorfa, convertem a si próprios em algo como um material a que o autor nomina de “caráter manipulador”. Segundo Adorno, (1995) esse comportamento se caracteriza pela ausência de emoções e por um realismo exagerado por ser extremamente incapaz de levar a cabo experiências humanas diretas, apresentando traços de incomunicabilidade que se identificam com personalidades psicóticas. Mostra-se atuante e culto, procurando praticar uma pretensa realpolitik. Nem desconfia que o mundo é diferente do que ele é.

Adornoconsidera que o mais importante para enfrentar os efeitos da semicultura é contrapor-se-ão poder cego de todos os coletivos, fortalecendo a resistência frente a eles por meio do esclarecimento. Segundo o autor, “o ponto de partida poderia estar no sofrimento que os coletivos infligem no começo a todos os indivíduos que se filiam a eles.” (ADORNO, 1995, p.127) Ele pensa que é preciso se opor aos hábitos populares, ritos de iniciação de qualquer espécie, que infligem dor física como preço por pertencer ao grupo e aponta os trotes de qualquer ordem como precursor imediato da violência nazista.

Esse tipo de caráter é resultado de uma consciência coisificada, ou seja, o semiformado se torna “coisa” e nessa medida transforma em “coisa” as outras pessoas. Diante disso, Adorno (1995) chama atenção para a conversão de uma relação humana em “coisa” alterando-se por essa via a experiência.

É resultado da semiculturação falso conceito de talento e o de competição. O conceito de talento é falso porque não existem modelos ideais para orientar a formação cultural do individuo. Quanto a competição, ao se referir a ela, o autor considera que seus fins são contrários a uma educação humana. E que esse tipo de educação é para esportistas e não pessoas desbarbarizadas, pois estimula valores como, por exemplo, a individualidade excessiva, falta de solidariedade e é excludente. Para o autor, mais importante do que competir é refletir acerca de suas debilidades do que a gente faz, ou das exigências que colocamos para nós mesmos. “O objetivo de se tornar brilhante e que no fundo é hostil ao espirito –encontra-se na ideia de fair play” (ADORNO, 1995, p 162). A competitividade desregrada encerra algo de desumano. Nesse sentido, o talento e a competição estão relacionados, quando os dois conceitos se baseiam em modelos ideais oferecidos pela semicultura para se realizarem.

A exposição do individuo aos meios de comunicação faz com que, gradativamente, a sua formação cultural seja direcionada para uma semiformação. Aos poucos, ela passa por um processo de adaptação no qual a sua capacidade de questionar e refletir sobre tudo que lhe cerca vai sendo retirada pela usurpação do esquematismo e como consequência desse processo ela não consegue perceber outras realidades, passando a supervalorizar a realidade por ela vivida. Esse processo, sutilmente gradativo, de semiformação que conduz à adaptação cria o conformismo, criando pessoas narcisistas e de caráter manipulador.

 

Possibilidades de uma Educação Focada na Emancipação

Os efeitos deletérios da indústria cultural expressam a forma repressiva da formação da subjetividade social do mundo atual, aceitando a objetividade do capitalismo tardio e interiorizando a dominação. Assim, ela confunde os planos da economia e da cultura, fazendo uso de apelos contra a razão e a vida intelectual. Por meio de seus produtos ela determina toda a estrutura de sentido da vida cultural pela racionalidade. Além disso, pelo mecanismo da semiformação, ocorre uma interferência na apreensão da sociedade, sejam com conteúdos irracionais ou conformistas, favorecendo a fraqueza do eu, estimulando o comportamento de adaptação. Nos dois casos mobilizam-se traços da personalidade autoritária.

Nesse contexto, aponta-se o espaço escolar como o local de reproduçãodessa subjetividade social , porque, segundo Arruda (2012), a escola não é um espaço neutro de mera instrução, mas espaços carregados de pressupostos que representam as relações de poder vigentes e convicções pessoais nem sempre explicitas.

È na escola que as crianças, seres em formação,são gradativamente preparados para atuarem na sociedade. Tem-se presenciado por ocasião dos movimentos escolanovistas a separação entre a escola e a vida. No entanto, resta saber até que ponto a escola deve manter uma distancia da vida e até que ponto deve aproximar-se dela de modo a permitir um processo de reflexão critica.

Segundo Adorno (1995), ideologicamente, a escola possui a tendência de se estabelecer na esfera da própria vida, dotada de legislação própria. É difícil decidir até que ponto isso é necessário para que ela realize a sua tarefa, pois uma escola aberta abriria mão de dos aspectos de formação e de amparo. Mas, na medida em que os membros da escola não admitem interferências, uma escola fechada sempre tende a se enrijecer, sobretudo face á critica.

Seria preciso atentar especialmente até que ponto o conceito de “necessidade da escola” oprime a liberdade intelectual e a formação do espirito (ADORNO, 1995, p. 116).Essa hostilidade em relação ao espirito impede o trabalho especifico dos professores. Uma vez que fechar o conhecimento entre quatro paredes impede a realização plena do exercício da docência. Devemos nos lembrar que a chave da transformação decisiva reside na sociedade e em sua relação com a escola. Nesse sentido, “Enquanto a sociedade gerar a barbárie a partir de si mesma, a escola tem apenas condições mínimas de resistir a isso”( ADORNO, 1995, p 116)

Um estudo que investiga a experiência formativa na educação infantil não pode prescindir de considerar a importância da figura do professor para orientar o aprendizado das crianças porque suas intervenções podem conduzir o aluno à emancipação ou alienação, segundo a formação do próprio professor. Uma educação que privilegie o aumento do nível de reflexão e a quebra dos mecanismos que impedem os sujeitos de se emanciparem deve se ocupar não só em conduzir seus alunos à formação, mas também seus professores.

Nessa perspectiva, espera-se que o profissional da educação seja um sujeito critico, reflexivo, um intelectual transformador, capaz de compreender o contexto-social-econômico-politico em que vive. Ou seja, “não se deve confundir o intelectual com o especialista em alguma coisa”. (ARRUDA, 2012, p 47)

Quando se examina a história da educação, percebe-se que a formação do professor foi relegada a segundo plano, sempre cercada de tabus os quaispropiciaram a tomada de aversão à profissão por muitos profissionais da educação, assim como ajudou a rotular toda essa classe trabalhadora como uma “profissão de fome”. O desprestigio e a baixa remuneração com todos os preconceitos que rondam essa profissão destinam essa atividade àqueles que formarão nossas crianças e conduzi-las-ão em direção a emancipação. Para Adorno (1995), a valorização da profissão docente começa pelos cuidados com a formação do professor. Entre os tabus que rondam o magistério a imagem autoritária é de todas a mais negativa relacionada a essa profissão.

Adorno (1995) não se sente com autoridade para apontar soluções para o magistério por não ser pedagogo, mas reconhece a dificuldade de acertar dos professores porque a própria profissão lhes nega a separação entre o trabalho docente objetivo do afetivo pessoal, uma vez que se trata de lidar com pessoas diferentes entre si e por isso com necessidades e vivências diferentes. No entanto, coloca uma questão inevitável: o que fazer?

Ainda, o mesmo autor citado, indica alguns aspectos que devem ser considerados sem a pretensão de resultados maiores. O primeiro, é que os professores não reprimam suas reações afetivas, muito antes pelo contrário, devem exterioriza-las. Em seguida, sugere que professores, pais e alunos deveriam conversar sobre questões cheias de tabus. Nesses termos, o esclarecimento só se verifica a partir do seu exterior. Não se deve esperar muito do esclarecimento intelectual, mas deve-se iniciar por ele qualquer intervenção nesse sentido. A profissão docente tem limitações e obstáculos que dão suporte aos tabus do magistério. Tais pontos nevrálgicos como, por exemplo, uma deformação psicológica, deveriam ser trabalhados, eliminados e corrigidos ainda na formação dos professores, em vez de orientar a sua formação pelos tabus vigentes. No caso de colegas mais antigos, haveria que se apelar a que condutas autoritárias prejudicam o objetivo educacional que também eles defendem racionalmente. “Mudanças de fundo exigem pesquisas acerca do processo da formação profissional” (ADORNO, 1995, p 114).

Muitos estudiosos de Adorno procuram extrair de suas obras as múltiplas possibilidades por ele apontadas nas entrelinhas do seu pensamento. Adorno (1995), embora não fosse um pedagogo, fez críticas contundentes à educação e com base nelas não quis indicar um modelo de educação por receio que ele se tornasse um modelo ideal de emancipação. No entanto, suas contribuições não passaram despercebidas a Pucci (2007) que no texto“ Teoria Critica da Educação”descreve essas ideias, as quais retirou dos postulados de Adorno e que apontam na direção de uma produção de uma consciência verdadeira, ou seja, uma educação voltada para o desenvolvimento de um sujeito autônomo, ativo e participante, as quais elencaremos a seguir.

A primeira contribuição refere-se a função educativa do refletir: essa função é resgatada ao se analisar as possibilidades de retorno à barbárie, Adorno no livro” A Educação após Auschwitz” afirma: “A educação só teria pleno sentido como educação para a autorreflexão crítica.”(ADORNO, 1995, p.121). Diante dessa constatação, o autor aponta a educação direcionada a autorreflexão critica como a principal saída para a situação de semiformado, na qual o homem se encontra mergulhado. Essa pressão do geral sobre o particular se reproduz pela repetição, a partir do momento que um indivíduo tem sua formação conduzida pelo outro. O autor justifica esse postulado a partir de duas questões: primeiro que deve estar focada na educação infantil já que é no período da primeira infância que o caráter é formado, sobretudo na primeira infância e depois ao esclarecimento em geral, pois ao criar um clima intelectual, social e cultural previne contra essa repetição. De acordo com as experiências vivenciadas pelo autor, ele afirma que a formação permeada de autorreflexão não prescinde apenas da produção de um clima voltado para uma interação sociocultural, mas também de uma preparação psicológica para uma conscientização sobre o valor do conhecimento e das relações dos seus elementosculturais .

A importância da autorreflexão neste contexto ganha contornos mais nítidosquando o autor explica que a autorreflexão é um mecanismo e um meio para se pensar a realidade e pensar em si inserido nela, conectando e elaborando o passado, o presente e o futuro e, consecutivamente, se construindo como um ser autônomo, com autodeterminação e não-participação.

O resgate da formação cultural como postulado pedagógico da emancipação, seria a segunda saída sugerida pelo autor. Conforme Pucci, (2007), embora Adorno tenha privilegiado a noção de dominação em sua análise da cultura, o valor dela reside na tentativa de reconstruir a noção de cultura, enquanto força politica. Assim de um lado a cultura deixou embotar sua dimensão formativa transformando-se em semicultura e, por outro, a formação, enquanto apropriação subjetiva da cultura, só tem condições de sobreviver através do pensamento critico.

Em seguida, temos a importância da educação e a responsabilidade da escola no processo de desbarbarização. A educação para Adorno tem uma importância primordial na questão da formação, no sentido de uma sociedade que se guie pela razão, na luta pela autonomia, pela emancipação. Nesse sentido, o processo de desbarbarização tem de ser global apresentando duas questões preliminares fundamentais para o seu desenvolvimento: primeiro, a atuação junto à criança, já que nesse momento predomina na educação infantil um momento fértil para a aprendizagem, em que as influencias da semicultura ainda não são tão profundas e, o segundo, diz respeitoao esclarecimento em geral que cria um clima social, espiritual e cultura que desmobiliza e despontecializa as possibilidades de repetição da barbárie.

O terceiro lugar, portanto, seria assimilar o passado como esclarecimento – a dimensão da hermenêutica: A arte da hermenêutica ganha importância cientifica e pedagógica, quando, através da educação, da psicologia e do esclarecimento decifra sinais sombrios do tempo e conduz à luz as manifestações de irracionalidades presente na historia dos homens, isto é,a tentativa de devolver, em forma de indicativos para o presente, as interrogações do passado, libertando-se do seu pesadelo. Mas não basta a libertação do passado que está vivo no presente. O passado só pode ser assimilado quando as causas que produziram esse passado forem eliminadas.

E por fim, o papel dos intelectuais coletivos no processo de “desbarbarização”: Os intelectuais, por profissão, têm importância fundamental no processo de desbarbarização da sociedade, não só por meio da educação escolar, mas também através de muitas outras atividades formativas, cujo objetivo é diminuir a diferença cultural existente entre os diversos grupos que compõe a sociedade É o caso de voltar a atenção a formação dos professores.

Baseando-se nas saídas apresentadas por Adorno e comentadas Pucci (2007), de que se deve trabalhar para a construção da autonomia do indivíduo para sua emancipação, cabe à escola criar propostas pedagógicas que contribuam com a formação moral, afetiva e ética de nossas crianças e não privilegiar somente a cognição, que não garante a formação integral do sujeito, o educar para a vida.

 

CONCLUSÃO

A educação é um processo social inerente à vida e intrínseco à condição da espécie humana. Considerando que exista uma memória cultural construída pelo homem, a cada novo membro no grupo, faz-se necessário que ele se insira no fluxo de sua cultura.

Essa educação se relaciona com a troca de experiências e conhecimentos empíricos educacionais, cujas relações determinam o crescimento do individuo em várias dimensões, enquanto ser histórico. Seu conteúdo existencial tem a razão subjetiva como sua base formativa.

De acordo com a concepção de Adorno (1995) que aponta para a “produção de uma consciência verdadeira” tem-se na educação uma forte aliada. Nesse sentido, a experiência formativa é um movimento no qual a figura realizada seria confrontada com a sua própria limitação, num processo dinâmico de contradição e resistência que implica na transformação do sujeito mediante seu contato com o objeto transformador – a realidade.

Ao analisar a educação a partir dos conceitos de barbárie e emancipação, Adorno (1995), demonstra preocupação com a questão da barbárie a que o homem está submetido, discutindo suas causas e consequências e reforça a necessidade de reconstruir sua individualidade na experiência com outros sujeitos, como fonte impulsionadora de resistência num mundo danificado pela crise da formação, apontando o esclarecimento como um esforço intelectual de revitalização do homem por meio da experiência – contra toda e qualquer forma de obscurantismo. Se a possibilidade de barbárie existe, então a educação assume um importante papel no sentido de prevenção, impedindo o seu retorno.

Nesse sentido, a desbarbarização se apresenta como um dos objetivos mais importantes da educação e função da escola, já que pelo homem sem o respaldo de uma instituição de ensino como suporte essadesconstrução se torna impossível.

Ao reconhecer os mecanismos que conduziram as pessoas à semiformação, nesse caso muito bem representado pelos meios de comunicação de massa e suas técnicas de persuasão transformados em ideologia, é preciso contrapor-se a uma ausência de consciência geral acerca desses mecanismos, evitando, assim, que as pessoas resumam suas ações em atos irrefletidos.

A partir do que a educação representa nesse mundo globalizado, a fase da infância assume o papel primordial no processo formativo na perspectiva emancipatória, pela reeducação dos sentidos que utiliza-se dos conhecimentos da filosofia para exercer o poder da criticidade.

O potencial pedagógico presente na retomada do pensar, no resgate da formação cultural como postulado de emancipação e na desbarbarização pela educação, focada na escolarização infantil, tem na autorreflexão critica seu suporte estratégico. Esses fatores associados a uma formação docente que visa quebrar os tabus que emperram uma educação de qualidade e ao fortalecimento da resistência, diante da ideologia do mundo administrado, têm o poder de resgatar a formação das crianças em favor de uma educação voltada para emancipação do sujeito, com autonomia para o exercício da democracia no mundo globalizado.

Nesse sentido, é oportuno apontar como educadores e aliados às ideias de Adorno, algumas sinalizações importantes para o trabalho com a autorreflexão dentro das instituições escolares e não escolares. Entende-se que a partir do momento que a equipe escolar, juntamente como família e comunidade começarem a construir suas propostas pedagógicas para a educação infantil, conscientes de que o desenvolvimento moral para a construção da autonomia da criança é tão importante quanto o desenvolvimento intelectual, as crianças terão o privilégio de se formarem em uma base mais sólida. Partindo do princípio de que a criança necessita ser trabalhada nos aspectos morais, afetivos e intelectuais, novas posturas e ações pedagógicas deverão entrar no currículo para que o desenvolvimento pleno aconteça em cada sujeito.

Todo o trabalho pedagógico voltado para a autorreflexão e autocrítica do sujeitos, planejado de uma forma constante e desenvolvido a partir de cada realidade, respeitando a forma de pensar e de se perceber no mundo de cada um, acredita-se que a longo prazo, haverá possibilidades de desbarbarização. Sabe-se que a educação é o fio condutor de qualquer movimento e transformações. Ela não dará conta de todos os problemas socioeconômicos, políticos, culturais e educacionais, todavia sem a educação pautada na concepção crítica, em que se apóia na emancipação e formação cultural, jamais teremos crianças , jovens, adultos e idosos emancipados e agentes de transformação cultural.

Cabe as escolas proporem projetos interdisciplinares e institucionais que abarcam e abrangem toda a comunidade escolar, visando assim a construção das competências intelectuais, psicomotores e , principalmente as atitudinais.

 

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Notas

1-Discentes do curso de Pedagogia, alunas de Iniciaçao Científica do Centro Universitário Newton Paiva.

2-Coordenadora da Pesquisa Docente do Centro Universitário Newton Paiva.

3-Coordenador da pesquisa, Docente do Centro Universitário Newton Paiva.

4-Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903 – 1969) renomado intelectual alemão, nascido em Frankfurt, no dia 11 de setembro de 1903, formou-se em filosofia, sociologia, psicologia, e tornou-se também musicólogo e compositor, graduando-se na Universidade de Frankfurt. Posteriormente fundou, ao lado de Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas, entre outros, a célebre Escola de Frankfurt.

5-Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/unesco-resources-inbrazil/studies-and-evaluations/violence/violence-in-schools/ Acesso em 20.maio.2013;

6-PIAGET, J. Judgment and reasoning in the Child. Londres: Kegan Paul TRENCH Trubner, 1928